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10 junho 2006
Jogo pelos professores

Vítor Serpa Porque hoje é sábado



Jogo pelos professores

Os pais sempre foram o pavor dos professores de natação, dos
técnicos do
futebol jovem, dos animadores das corridas de rua. Os pais, em
casa, acham
os filhos umas pestes; mas na escola, no campo desportivo, no
patamar da
casa do vizinho, acham os filhos virtuosos e sábios



OS professores andam em pé de guerra. Como os professores são
normalmente
distantes uns dos outros, os seus pés de guerra andam por aí
semeados como
pés de salsa, espalhados pelo País. De norte a sul.
Os professores estão descontentes. Com a vida que lhes corre
mal, porque
ninguém os valoriza; com os colegas, que só se interessam por
resolver a sua
vidinha; com os alunos, que os desconsideram e maltratam; e,
acima de tudo,
com o Governo da nação, que os desvaloriza, os desautoriza e os
desmoraliza.
Nunca fui um estudante fácil e sabia que um professor
desautorizado era um
homem (ou uma
mulher) morto na escola. Não quero dizer fisicamente mas
profissionalmente.
Como sempre fui bom observador, conhecia de ginjeira os
professores fortes e
os professores fracos. Os fortes resolviam, por si próprios, a
questão.
Alguns pela autoridade natural do seu saber e da sua atitude,
outros de
forma menos académica. Os fracos eram defendidos pelos
reitores. Ir à sala
de um reitor era, já por si, um terrível castigo. Mas bem me
lembro que
professores fracos e fortes, bons e nem por isso, se protegiam,
se defendiam
e se reforçavam na sua autoridade comum. Já nesse tempo se
percebia que
tinha de ser assim, porque, se não fosse, os pais comiam-nos
vivos e
davam-nos, já mastigados, aos filhos relapsos. E isso a escola
não
consentia. Os pais, dito assim de forma perigosamente genérica,
sempre foram
entidades pouco fiáveis em matéria de juízo sobre os seus
filhos e, por
isso, sobre quem deles cuida, ensina e faz crescer. Os pais
sempre foram o
pavor dos professores de natação, dos técnicos do futebol
jovem, dos
animadores das corridas de rua. Os pais, em casa, acham os
filhos umas
pestes; mas na escola, no campo desportivo, no patamar da casa
do vizinho,
acham os filhos virtuosos e sábios. Os pais são,
individualmente,
insuportáveis e, colectivamente, uma maldição. Claro que há
pais... e pais.
E vocês sabem que não me refiro aos pais a sério, que são
capazes de manter
a distância e o bom senso.
Falo dos outros, dos pais e das mães que acham sempre que os
seus filhos
deviam ser os capitães da equipa e deviam jogar sempre no lugar
dos outros
filhos. O trágico disto tudo é que são precisamente esses pais
os que, na
escola, se acham verdadeiramente capazes de fazer a avaliação,
o julgamento
sumário dos professores dos seus filhos, achando que eles só
servem para
fazer atrasar os seus Einsteinzinhos.
Por isso eu aqui me declaro a favor dos professores. Quero
jogar na equipa
deles contra a equipa dos pais e ganhar o desafio da vida real
e do futuro
deste país contra o desafio virtual dos pedagogos de alcatifa.

posted by Plastik @ sábado, junho 10, 2006  
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